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Quando conhecer mais sobre a gestação vira culpa

Compreender que a gestação pode influenciar o desenvolvimento não significa transformar a mãe na responsável por tudo o que acontecerá com seu filho.

Existe um efeito inesperado que pode acontecer quando começamos a conhecer mais sobre gestação, desenvolvimento fetal e Psicologia Pré e Perinatal.

Em vez de curiosidade, aparece culpa.

“Eu fiquei muito ansiosa.”

“Eu chorei demais.”

“Eu não queria engravidar naquele momento.”

“Passei por uma separação.”

“Será que fiz mal ao meu bebê?”

Quanto mais uma mulher aprende que o ambiente gestacional participa do desenvolvimento, maior pode ser a tentação de olhar para trás procurando tudo aquilo que não fez perfeitamente.

Não existe gestação emocionalmente perfeita

A gestação não suspende a vida.

Mulheres continuam vivendo lutos, conflitos, dificuldades financeiras, doenças, medos, mudanças e ambivalências.

A ciência investiga associações entre sofrimento psicológico materno significativo ou persistente e diferentes aspectos do desenvolvimento infantil.

Mas associação não significa que uma emoção isolada tenha produzido uma dificuldade específica na criança.

O desenvolvimento humano é complexo.

Genética, biologia, ambiente, relações, condições sociais, experiências posteriores, fatores de proteção e plasticidade participam dessa trajetória.

Influência não é culpa

Existe uma diferença enorme entre dizer que um ambiente influencia um organismo e dizer que uma pessoa é culpada por aquilo que acontece com ele.

Uma gestante não controla todas as circunstâncias da própria vida.

Também não controla todas as respostas do próprio organismo.

E não precisa atravessar nove meses em estado permanente de tranquilidade para oferecer ao bebê a possibilidade de um desenvolvimento saudável.

Conhecimento deveria ampliar recursos.

Não produzir um novo tribunal interno.

“Mas meu bebê já nasceu. E agora?”

Agora a história continua.

Depois do nascimento existem presença, toque, cuidado, responsividade, vínculo, proteção, novas experiências e possibilidades de reparação.

O desenvolvimento não termina no parto.

O sistema nervoso continua amadurecendo em relação com o ambiente.

Pais e cuidadores também aprendem.

Relações podem ser construídas, reorganizadas e reparadas.

Olhar para o começo da história pode nos ajudar a compreendê-la.

Não precisa nos aprisionar a ela.

Patrícia Della Torre de Oliveira

Referências

  • Mandl S, et al. The effect of prenatal maternal distress on offspring brain development: A systematic review. Early Human Development. 2024;192:106009. doi:10.1016/j.earlhumdev.2024.106009.
  • Trombetta T, et al. Pre-natal Attachment and Parent-To-Infant Attachment: A Systematic Review. Frontiers in Psychology. 2021;12:620942. doi:10.3389/fpsyg.2021.620942.

Referências selecionadas pela própria Patrícia.

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