Uma gestação pode despertar sentimentos que surpreendem.
Medos que parecem maiores do que a situação atual.
Necessidade intensa de controlar.
Vontade de se afastar.
Irritabilidade.
Angústia diante do parto.
Ou uma sensação difícil de nomear.
Nem sempre aquilo que aparece diz respeito apenas ao bebê que está chegando.
Tornar-se pai ou mãe também pode nos aproximar da criança que um dia fomos.
Quando a própria história entra na sala
Na Psicologia Pré e Perinatal, consideramos a possibilidade de que gestação, nascimento e parentalidade mobilizem experiências muito precoces dos próprios pais, inclusive aspectos relacionados à maneira como foram gestados, nasceram e viveram seus primeiros vínculos.
Eu trabalho com essa possibilidade como hipótese de investigação.
Se uma gestante apresenta um medo de parto muito intenso, por exemplo, podemos investigar não apenas informações médicas e experiências atuais, mas também histórias de nascimento na família, perdas, emergências, relatos sobre seu próprio nascimento e mensagens que escutou ao longo da vida.
Isso não significa decretar que encontramos a origem do medo.
Significa ampliar a investigação.
Nem toda ativação aparece como medo
Às vezes ela aparece como controle.
Como afastamento.
Como dificuldade de receber ajuda.
Como necessidade de garantir que tudo aconteça exatamente como planejado.
Como vontade de abandonar antes de correr o risco de ser abandonado.
Comportamentos semelhantes podem ter histórias completamente diferentes.
Por isso, investigamos.
Não decretamos.
Histórias também atravessam gerações
Hoje existem pesquisas sobre transmissão intergeracional de adversidades, mostrando associações entre experiências difíceis vividas pelos pais e diferentes desfechos nos filhos.
Essas transmissões podem acontecer por muitos caminhos: narrativas familiares, silêncios, crenças, modelos de relacionamento e cuidado, condições sociais e ambientais e processos biológicos que vêm sendo investigados, inclusive no campo da epigenética.
Isso não significa que uma experiência específica atravesse gerações intacta como uma memória pronta.
Significa que histórias familiares podem continuar produzindo efeitos de maneiras complexas.
Consciência amplia possibilidades
Conhecer a própria história não serve para procurar culpados.
Serve para perceber aquilo que talvez esteja sendo repetido automaticamente.
Quando reconhecemos o que foi ativado, podemos construir recursos, diferenciar passado e presente e experimentar novas respostas.
A chegada de um filho pode despertar histórias muito antigas.
E talvez reconhecê-las seja justamente o que nos permita não precisar repeti-las da mesma maneira.
Referências
- Racine N, Deneault AA, Thiemann R, Turgeon J, Zhu J, Cooke J, Madigan S. Intergenerational transmission of parent adverse childhood experiences to child outcomes: A systematic review and meta-analysis. Child Abuse & Neglect. 106479. doi:10.1016/j.chiabu.2023.106479.
- Roubinov D, et al. Prenatal programming of child neurodevelopment: maternal adverse childhood experiences as a target for prevention. American Psychologist. 2021. PMID:33734799. doi:10.1037/amp0000762.
Referências selecionadas pela própria Patrícia.