Pular para o conteúdo
Site em construção · lançamento em breve
Agendar

Banho de Linguagem: quando as palavras ajudam a organizar a experiência

Nem tudo o que acontece ao redor de um bebê pertence a ele.

Durante a gestação, a vida continua acontecendo.

Existem dias tranquilos e dias difíceis. Existem preocupações financeiras, conflitos no relacionamento, mudanças, perdas, sustos, problemas de saúde, medos e acontecimentos que não estavam previstos.

E o bebê está ali.

Desenvolvendo-se dentro de um organismo que participa de tudo isso.

Já conversamos sobre como o ambiente gestacional pode participar do desenvolvimento do bebê. Mas existe uma diferença muito importante entre reconhecer essa influência e imaginar que tudo aquilo que acontece ao redor dele passa a fazer parte da sua história da mesma maneira que faz parte da história dos adultos.

Na Psicoembriologia, existe um recurso muito interessante para trabalhar justamente essa diferenciação: o banho de linguagem.

Dar palavras àquilo que está acontecendo

Banho de linguagem é, de maneira simples, colocar em palavras a experiência que está sendo vivida.

Imagine uma gestante que recebe uma notícia difícil e passa alguns dias muito angustiada.

Ela pode conversar com o bebê:

“Eu estou muito preocupada agora porque aconteceu uma coisa difícil na minha vida. Essa preocupação é minha. Existem adultos cuidando disso. Você não precisa resolver nada. Você pode continuar crescendo.”

Ou talvez exista um conflito entre os pais:

“Hoje nós discutimos e houve muita tensão aqui fora. Isso aconteceu entre nós. Não foi por sua causa.”

Parece simples.

E talvez justamente por isso seja tão bonito.

Porque a intenção não é criar uma gestação sem conflitos.

É dar contexto à experiência.

Separar o joio do trigo

Eu costumo pensar no banho de linguagem também como uma maneira de separar o joio do trigo.

O que pertence à mãe?

O que pertence ao pai ou aos outros adultos?

O que pertence à história familiar?

E o que realmente pertence àquele bebê?

Essa diferenciação se torna especialmente importante quando existe uma situação emocionalmente intensa.

Uma gravidez pode acontecer durante um luto.

Durante uma separação.

Em meio a dificuldades financeiras.

Pode ter sido inesperada.

Pode ter provocado ambivalência.

Pode existir medo.

Nada disso significa que aquela criança seja o problema.

E colocar isso em palavras pode ser uma maneira de marcar essa diferença:

“Eu fiquei assustada quando descobri a gravidez. Não porque exista alguma coisa errada com você. Eu estava assustada com aquilo que estava acontecendo na minha vida naquele momento.”

Existe uma diferença enorme entre:

“Eu não queria você.”

e

“Eu não sabia como receber uma gravidez naquele momento da minha vida.”

Às vezes, compreender essa diferença transforma inclusive a maneira como os próprios adultos contam aquela história.

Mas o bebê entende o que estamos dizendo?

Não da maneira como um adulto entende.

E essa distinção é fundamental.

Não precisamos atribuir ao bebê intrauterino uma capacidade de compreensão linguística que ele ainda não possui para reconhecer que a voz, seus ritmos e características sonoras fazem parte do ambiente sensorial fetal em determinados períodos da gestação.

A ciência possui evidências de aprendizagem auditiva pré-natal e de reconhecimento posterior de características da fala ouvida durante a gestação.

Mas o banho de linguagem, como recurso terapêutico da Psicoembriologia, vai além daquilo que essas pesquisas demonstram.

Não temos evidência científica para afirmar, por exemplo, que um bebê compreenda semanticamente a frase “esse medo pertence à mamãe e não a você” e, a partir disso, deixe de registrar determinada experiência.

Essa é uma distinção que faço questão de manter.

Uma coisa é aquilo que conseguimos demonstrar cientificamente.

Outra é a maneira como, dentro de uma abordagem terapêutica, utilizamos a linguagem para favorecer presença, diferenciação e organização da experiência.

As duas podem conversar sem precisarmos transformar uma na outra.

Talvez as palavras também sejam para os adultos

Existe ainda uma dimensão do banho de linguagem que considero muito importante.

Quando uma mãe diz:

“Esse medo é meu. Você não precisa carregá-lo”,

ela não está apenas falando com o bebê.

Ela também está se escutando.

Ela está reconhecendo que sente medo.

Está percebendo que aquele medo tem uma história.

Está diferenciando a própria experiência da experiência do filho.

E talvez esteja fazendo algo que continuará sendo necessário muitas vezes depois que aquela criança nascer.

Porque essa diferenciação não termina no parto.

Pais continuarão tendo medos, desejos, expectativas, frustrações e histórias próprias.

E seus filhos continuarão precisando de espaço para construir as deles.

O banho de linguagem não precisa terminar no nascimento

Um bebê pequeno também vive situações que ainda não consegue compreender ou organizar através da linguagem.

Uma mudança de casa.

Uma internação.

A ausência temporária de alguém importante.

Uma separação necessária.

Um procedimento médico.

A chegada de um irmão.

Podemos contar o que está acontecendo.

Com palavras simples.

Sem exigir que a criança compreenda cognitivamente toda a explicação.

A linguagem pode acompanhar o cuidado.

E isso também vale quando alguma coisa difícil já aconteceu.

Podemos voltar àquela experiência e colocar palavras onde antes talvez houvesse apenas sensações, medo, confusão ou silêncio.

Dar palavras não é apagar aquilo que aconteceu

O banho de linguagem não muda o passado.

Não impede que experiências difíceis aconteçam.

E não é uma fórmula capaz de garantir que uma criança jamais carregue marcas daquilo que viveu.

Talvez sua função seja mais delicada.

Dar contexto.

Reconhecer.

Diferenciar.

Acolher.

E lembrar que uma criança pode estar inserida na história de uma família sem precisar receber como sua tudo aquilo que pertence aos adultos que vieram antes dela.

Porque amar também envolve diferenciação.

“Esta é a minha história.

Você faz parte dela.

Mas não precisa carregá-la por mim.”

Patrícia Della Torre de Oliveira

Referências

  • Trombetta T, et al. Pre-natal Attachment and Parent-To-Infant Attachment: A Systematic Review. Frontiers in Psychology. 2021;12:620942. doi:10.3389/fpsyg.2021.620942.

Referências selecionadas pela própria Patrícia.

Continuar lendo

Outros artigos

Ver todos os artigos

Quer conversar sobre a sua história?

A primeira conversa serve para a gente se conhecer. Sem compromisso de continuar.

Agendar psicoterapia

Telefone:
E-mail: