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Nascer: a primeira grande transição da vida

Nascer não é apenas chegar ao mundo. É atravessar uma transição.

Durante meses, o bebê se desenvolve em um ambiente relativamente estável: temperatura regulada, sons filtrados, contenção, movimento e uma relação fisiológica contínua com o organismo materno.

Então acontece o nascimento.

Respirar muda. A circulação se reorganiza. A temperatura precisa ser regulada de outra maneira. Luz, som, gravidade, toque e espaço passam a ser experimentados de um modo completamente novo.

Do ponto de vista fisiológico, nascer é uma transição extraordinária.

E, do ponto de vista humano, também é um rito de passagem.

Não existe uma via de nascimento que explique uma pessoa

Quando começamos a olhar para o nascimento a partir da Psicologia Pré e Perinatal, existe um risco: transformar a via de parto em explicação para a personalidade.

Uma cesariana não condena uma criança a determinado padrão emocional.

Mas isso não significa que a experiência do nascimento seja irrelevante.

Um trabalho de parto vaginal longo, uma emergência, uma prematuridade, intervenções médicas necessárias ou uma cesariana podem fazer parte de uma experiência intensa para o bebê, para a gestante e para a família.

Influência não é determinação.

E talvez exista algo maior do que a via de nascimento: existe a experiência daquele nascimento.

Quando o nascimento pode ser vivido com presença

Quando as condições clínicas permitem, práticas como o contato pele a pele precoce favorecem aspectos importantes da adaptação neonatal, da amamentação e da interação entre bebê e cuidador.

Mas nem sempre aquilo que desejamos é possível.

Às vezes o bebê precisa de cuidados médicos imediatos.

Às vezes a gestante precisa ser atendida.

Às vezes existe separação.

Isso não significa que o vínculo foi perdido.

Uma relação não se define por um único momento.

O nascimento como parte da história

Na Psicologia Pré e Perinatal, podemos investigar o nascimento como uma das experiências que participam da história de uma pessoa.

Podemos perguntar como aconteceu, quais eram as condições, o que a família viveu, como foram os primeiros cuidados e o que aconteceu depois.

Mas não precisamos transformar o nascimento na causa de toda dificuldade adulta.

O nascimento inaugura uma nova etapa da história.

Não determina como ela terminará.

Patrícia Della Torre de Oliveira

Referências

  • Moore ER, Brimdyr K, Blair A, et al. Immediate or early skin-to-skin contact for mothers and their healthy newborn infants. Cochrane Database of Systematic Reviews. 2025.
  • Mendoza-Aucaruri L, et al. Effects of skin-to-skin contact on mental health outcomes in parents of full-term newborns: systematic review and meta-analysis of randomized controlled trials. Journal of Affective Disorders. 2025;369:1090-1098. doi:10.1016/j.jad.2024.10.065.

Referências selecionadas pela própria Patrícia.

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