Talvez você tenha aprendido a agradar.
A controlar.
A antecipar.
A não pedir ajuda.
A resolver tudo sozinho.
A perceber rapidamente o humor das pessoas.
A evitar conflitos.
A esconder aquilo que sente.
Talvez algumas dessas respostas tenham começado muito cedo. Outras podem ter surgido depois.
Algumas nasceram nas relações. Outras foram fortalecidas por elas.
E algumas talvez tenham sido a melhor resposta que você conseguiu construir com os recursos que tinha naquele momento.
Compreender não é encontrar um culpado
Conhecer nossa história pode ampliar enormemente a compreensão sobre aquilo que fazemos hoje.
Mas compreender não é realizar uma investigação para descobrir quem estragou quem.
Pais também possuem histórias. Cuidadores possuem recursos e limites. Famílias atravessam contextos econômicos, sociais, culturais e emocionais. Crianças possuem características próprias.
Isso não elimina responsabilidade. Também não transforma experiências dolorosas em algo aceitável.
Significa apenas que desenvolvimento humano é muito mais complexo do que: “isso aconteceu, então você se tornou aquilo”.
Somos atravessados pela nossa história. Mas não somos uma equação simples produzida por ela.
Então por que voltar ao passado?
Não para morar lá.
Voltamos porque às vezes o presente contém respostas que começaram em contextos que já não existem.
Compreender a história permite fazer uma pergunta nova:
Isso ainda precisa funcionar exatamente dessa maneira?
O padrão não apareceu do nada
É aqui que diferentes perspectivas que atravessam o meu trabalho começam a conversar.
A teoria do apego ajuda a pensar como experiências relacionais participam das expectativas sobre disponibilidade, segurança e vínculo.
A Psicologia Pré e Perinatal amplia a investigação para experiências muito iniciais do desenvolvimento, desde que hipóteses clínicas não sejam transformadas em relações causais que a ciência não demonstrou.
A Psicologia Corporal lembra que nossa maneira de responder à vida envolve corpo, emoção, ação e relação.
A Focalização convida a escutar aquilo que muitas vezes ainda não encontrou palavras.
A Virtologia acrescenta a investigação das necessidades envolvidas e das competências que podem ser desenvolvidas.
E minha prática integrativa me leva continuamente à mesma pergunta:
O que esse padrão está tentando fazer por essa pessoa?
Aquilo que protege também pode cobrar um preço
Uma defesa não precisa ser inimiga para ter se tornado cara demais.
Controlar pode produzir segurança — e exaustão.
Agradar pode preservar relações — e afastar você de si mesmo.
Não pedir ajuda pode evitar decepções — e produzir solidão.
Antecipar pode diminuir surpresas — e manter o organismo permanentemente em alerta.
Evitar conflito pode proteger o vínculo — e impedir intimidade.
O que isso ainda protege — e quanto estou pagando por essa proteção hoje?
Reelaborar não é trocar uma história ruim por uma história bonita
Eu gosto da palavra reelaboração justamente por isso.
Não se trata de convencer alguém de que aquilo que doeu foi para o seu bem.
Não é transformar abandono em gratidão. Violência em aprendizado. Negligência em missão. Nem sofrimento em presente espiritual.
Algumas coisas foram dolorosas. Algumas foram injustas. Algumas não deveriam ter acontecido.
Reelaborar significa poder olhar para aquilo que aconteceu com os recursos que existem hoje.
Reconhecer o impacto. Compreender as respostas construídas. Perceber o que ainda se repete. Fortalecer aquilo que precisa ser desenvolvido. E experimentar outras maneiras de responder.
Não mudamos o acontecimento. Mudamos as possibilidades que existem a partir dele.
Porque saber não significa conseguir
Existe uma frase que aparece muitas vezes no consultório: “Eu sei disso.”
E eu acredito.
Mas saber não necessariamente reorganiza uma resposta que se tornou automática.
Mudança não acontece apenas através da compreensão intelectual.
Precisamos construir recursos, experimentar, sentir, tolerar desconfortos novos, criar experiências diferentes, reconhecer necessidades, perceber o corpo, revisar significados e construir competências.
Talvez liberdade não seja deixar de ter padrões
Todos nós organizamos maneiras relativamente estáveis de responder à vida.
A questão é: quantas respostas estão disponíveis para você?
É aqui que começa a existir escolha.
Não uma escolha absoluta. Não a ideia simplista de que basta querer diferente.
Mas uma escolha que vai aumentando conforme aumentam consciência, recursos e possibilidades de resposta.
E existe também uma dimensão espiritual nessa caminhada
Aqui eu saio deliberadamente do território da evidência científica e entro na maneira como compreendo espiritualmente a experiência humana.
Eu acredito que estamos aqui para expandir consciência. Para crescer. Para atravessar desafios. E talvez para transformar inclusive as partes mais difíceis da nossa história em possibilidades de desenvolvimento.
Isso não significa acreditar que tudo precisava acontecer. Nem chamar sofrimento de bênção. Muito menos responsabilizar alguém por aquilo que sofreu.
Significa reconhecer uma liberdade que, para mim, é profundamente preciosa:
Eu não preciso transformar aquilo que aconteceu comigo naquilo que continuará acontecendo através de mim.
Existem coisas que não posso mudar. Existem capítulos que não posso reescrever.
Mas posso olhar para eles. Compreendê-los. Reelaborá-los. Construir recursos que antes eu não tinha.
Eu não pude escolher tudo o que atravessei. Mas posso, aos poucos, construir recursos para escolher como seguirei a partir disso.
Talvez seja justamente aí que a história deixe de ser apenas aquilo que aconteceu conosco e passe a incluir também aquilo que conseguimos construir com ela.
Porque compreender nossas sombras não significa permanecer dentro delas.
Significa poder acender luz onde antes só existia repetição.
E, para mim,
nenhuma sombra resiste à luz.
Referências
- BOWLBY, J. A Secure Base: Parent-Child Attachment and Healthy Human Development. New York: Basic Books, 1988.
- MIKULINCER, M.; SHAVER, P. R. Attachment in Adulthood: Structure, Dynamics, and Change. 2. ed. New York: Guilford Press, 2016.
- CASAROTTO, E. Manual de Desenvolvimento Humano em Virtudes. Campinas, SP: Ed. do Autor, 2025.
- CASAROTTO, E. Fundamentos da Virtologia: Os Grupos de Necessidades. 3. ed., 2026.
Referências selecionadas pela própria Patrícia.