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Quando o nascimento continua ecoando na nossa história

Não precisamos lembrar conscientemente de uma experiência para reconhecer que ela pertence à nossa história.

Quase ninguém consegue contar o próprio nascimento a partir de uma lembrança autobiográfica.

Sabemos como nascemos porque alguém nos contou.

Porque existe uma fotografia.

Um prontuário.

Uma história repetida pela família.

“Você demorou muito para nascer.”

“Foi tudo muito rápido.”

“Precisaram fazer uma cesariana de emergência.”

“Você nasceu prematuro.”

“Ficou alguns dias na UTI.”

“Eu não pude pegar você no colo.”

Às vezes conhecemos muitos detalhes.

Às vezes não sabemos praticamente nada.

Mas, na Psicologia Pré e Perinatal, existe uma pergunta interessante:

o fato de não conseguirmos lembrar conscientemente significa que essa experiência não participou da nossa história?

Nascimento não é sinônimo de trauma

Esse ponto precisa ficar muito claro.

Todo ser humano nasce.

Todo nascimento envolve uma enorme transição fisiológica e ambiental.

Isso não significa que todo nascimento seja traumático.

Também não podemos olhar para a via de nascimento e deduzir a personalidade de alguém.

“Nasceu de cesariana, por isso tem dificuldade com mudanças.”

“Foi parto induzido, por isso precisa que os outros façam tudo por ele.”

“Demorou para nascer, por isso procrastina.”

Essas associações podem aparecer em algumas construções teóricas da Psicologia Pré e Perinatal, mas não são relações causais estabelecidas cientificamente.

Para mim, elas só podem ter algum valor quando utilizadas como hipóteses que abrem perguntas.

Nunca como respostas que encerram uma investigação.

Então por que conhecer a história do nascimento?

Porque contexto importa.

Imagine uma pessoa que tenha nascido prematuramente, necessitado de internação prolongada e permanecido separada de seus cuidadores durante um período importante após o nascimento.

Ou alguém cuja chegada aconteceu em uma situação de emergência médica intensa.

Essas informações pertencem à história daquela pessoa.

Assim como pertencem a ela os cuidados que recebeu depois, os vínculos que construiu, as experiências da infância e tudo aquilo que aconteceu ao longo dos anos seguintes.

Investigar o nascimento não significa dizer:

“Encontrei a causa.”

Significa acrescentar uma peça à história.

E quando alguma coisa aparece no corpo?

Em trabalhos corporais ou experiências terapêuticas, algumas pessoas relatam sensações, imagens, emoções ou movimentos que associam ao próprio nascimento.

Isso pode ser profundamente significativo.

Mas precisamos fazer uma distinção importante.

Uma experiência surgida durante uma sessão não comprova historicamente que determinado acontecimento ocorreu.

Nosso cérebro reconstrói experiências. Memórias são suscetíveis a associações, interpretações e sugestões.

Por isso, eu não trabalho procurando produzir uma memória de nascimento.

Trabalho com aquilo que aparece no presente.

Se surge uma sensação de aprisionamento, investigamos essa sensação.

Se aparece medo, investigamos o medo.

Se o corpo quer empurrar, recuar, proteger-se ou interromper determinado movimento, podemos observar aquilo.

Não precisamos decidir imediatamente de onde veio.

Reelaborar não é reescrever o passado

Reelaborar não significa convencer alguém de que uma experiência difícil foi boa.

Também não significa imaginar um nascimento perfeito até apagar aquilo que aconteceu.

O passado não muda.

O que pode mudar é a maneira como aquela experiência participa da vida presente.

Uma pessoa pode construir novos significados.

Fortalecer recursos que antes não possuía.

Favorecer uma nova organização diante da experiência.

Perceber que uma resposta que continua aparecendo automaticamente talvez não seja mais necessária.

Experimentar segurança onde antes existia apenas alerta.

Construir vínculos diferentes.

Encontrar novas possibilidades de escolha.

Isso é muito diferente de apagar uma memória.

E as terapias regressivas, renascimentos e trabalhos corporais?

Elas pertencem a campos terapêuticos diferentes e não possuem todas o mesmo nível de evidência científica.

Em algumas abordagens integrativas e Pré e Perinatais, visualizações, experiências regressivas, respiração, movimentos corporais ou representações simbólicas do nascimento podem ser utilizados como recursos terapêuticos.

Eu considero mais seguro compreendê-los como experiências simbólicas e clínicas de exploração, reelaboração e fortalecimento de recursos, e não como métodos capazes de recuperar uma gravação fiel do nascimento.

O objetivo não precisa ser descobrir exatamente o que aconteceu.

Pode ser perceber o que aquela experiência mobiliza no presente, favorecer uma nova organização diante dela e construir recursos que ampliem as possibilidades de resposta.

Uma imagem pode ser verdadeira emocionalmente sem funcionar como documento histórico.

Uma sensação pode merecer acolhimento sem precisar provar sua origem.

E uma experiência terapêutica pode ser significativa mesmo quando não sabemos exatamente quando determinado padrão começou.

Às vezes podemos investigar a história real

Quando existe essa possibilidade, há algo muito simples e precioso que pode ser feito:

perguntar.

Conversar com familiares.

Conhecer as circunstâncias da gestação e do parto.

Buscar registros médicos quando existirem.

Descobrir como aquela história era contada.

E também prestar atenção aos silêncios.

Não para encontrar uma explicação perfeita para a vida atual.

Mas para conhecer melhor a própria história.

Às vezes descobrimos algo que faz sentido.

Às vezes descobrimos algo completamente diferente daquilo que imaginávamos.

E às vezes continuamos sem saber.

Tudo isso precisa poder existir.

Não precisamos encontrar o primeiro capítulo para mudar o próximo

Talvez essa seja uma das coisas mais importantes que aprendi trabalhando com padrões humanos.

Existe uma tentação de acreditar que, se encontrarmos a primeira vez em que alguma coisa aconteceu, finalmente estaremos livres dela.

Nem sempre.

Compreender a origem pode ser profundamente transformador.

Mas transformação também acontece quando reconhecemos a função atual de um padrão, percebemos seu custo, construímos recursos e começamos a experimentar respostas diferentes.

O nascimento pode ser uma parte importante dessa investigação.

Pode até ser uma peça que faltava.

Mas não precisamos obrigar toda história a começar ali.

Conhecer o começo pode ampliar nossa compreensão.

Mas não precisamos voltar ao início para conquistar o direito de escrever diferente daqui para frente.

Patrícia Della Torre de Oliveira

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