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Quando controlar foi a maneira que você encontrou de se sentir seguro

Nem todo controle nasce do desejo de mandar. Às vezes, ele nasce do medo de ser pego de surpresa.

Tem gente que precisa saber.

Que horas vamos sair. Quem vai estar lá. Quanto tempo vai durar. O que vai acontecer depois. Qual é o plano. E, se possível, o plano B.

Organiza. Confere. Antecipa. Prevê.

E quando alguma coisa sai completamente do esperado, às vezes não é apenas irritação que aparece. Pode existir uma sensação mais profunda de desorganização.

Talvez a pergunta mais interessante não seja “por que você é tão controladora?”, mas:

O que fica ameaçado quando você não consegue controlar?

Controle também pode ser competência

Planejar é importante.

Antecipar consequências, organizar a vida, estabelecer limites e agir sobre aquilo que está ao nosso alcance também são expressões de autonomia.

Gostar de planejamento não significa possuir uma dificuldade psicológica.

O comportamento pode parecer o mesmo. A função, não.

Quando prever significa proteger

Uma criança pode viver em um ambiente em que nunca sabe exatamente o que encontrará.

Talvez existam conflitos, mudanças de humor, regras inconsistentes ou simplesmente uma combinação entre sensibilidade individual e imprevisibilidade.

Ela observa sinais, antecipa e tenta reduzir surpresas.

Isso não significa que toda pessoa controladora tenha vivido uma infância imprevisível.

Não podemos reconstruir uma história a partir de um comportamento.

Podemos investigar se, naquela história específica, prever, organizar ou controlar exerceu uma função protetiva.

E aqui aparece novamente a necessidade

Na Virtologia, controle aparece entre as necessidades humanas e não é tratado, por si só, como patológico.

Pode se combinar com segurança, previsibilidade, autonomia, proteção, confiança e outras necessidades.

Então não basta perguntar “o que você faz?”.

Precisamos perguntar: o que você tenta garantir quando faz isso?

O controle funciona

Planejar reduz alguns imprevistos.

Conferir diminui alguns erros.

Antecipar permite preparar respostas.

Assumir responsabilidades pode evitar depender de alguém que talvez não cumpra o combinado.

Muitas estratégias permanecem justamente porque funcionaram.

O problema é precisar controlar para conseguir se sentir seguro.

O preço de tentar impedir a surpresa

Talvez seja difícil delegar, descansar enquanto outra pessoa está responsável, mudar de ideia ou permitir que alguém faça de um jeito diferente.

E existe um paradoxo: quanto mais tentamos eliminar completamente a incerteza, mais ameaçadora a incerteza pode se tornar.

A vida não oferece previsibilidade total.

Então precisamos simplesmente “soltar o controle”?

Eu não gosto muito dessa frase.

Para alguém cujo controle exerce função de segurança, “solta e confia” pode soar como um convite a abandonar aquilo que o protege.

Antes de retirar uma estratégia, precisamos compreender aquilo que ela sustenta.

Talvez seja necessário construir tolerância à incerteza, fortalecer recursos, diferenciar responsabilidade própria daquilo que pertence ao outro e experimentar pequenas situações em que não controlar não produz catástrofe.

Talvez flexibilizar seja diferente de perder o controle

Não precisamos sair de “eu preciso controlar tudo” para “não controlo nada”.

Existe um espaço no meio.

Posso planejar e modificar o plano. Organizar e aceitar interferências. Assumir responsabilidade sem assumir responsabilidade por tudo.

Talvez liberdade não seja viver sem controle.

Talvez seja poder utilizá-lo quando ele é recurso — sem precisar dele o tempo inteiro para se sentir seguro.

Patrícia Della Torre de Oliveira

Referências

  • CASAROTTO, E. Fundamentos da Virtologia: Os Grupos de Necessidades. 3. ed., 2026.
  • MIKULINCER, M.; SHAVER, P. R. Attachment in Adulthood: Structure, Dynamics, and Change. 2. ed. New York: Guilford Press, 2016.

Referências selecionadas pela própria Patrícia.

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