Quando pensamos em memória, geralmente pensamos em lembranças.
Uma casa.
Uma pessoa.
Uma conversa.
Uma situação que conseguimos recuperar e contar.
Mas grande parte da nossa história começou antes de termos linguagem — e antes de possuirmos a capacidade de construir memórias autobiográficas como aquelas que acessamos conscientemente mais tarde.
Durante a gestação, existe um organismo em desenvolvimento recebendo estímulos.
Movimento.
Pressão.
Som.
Ritmos.
Alterações hormonais e metabólicas.
Mudanças naquele ambiente.
Isso não significa que o bebê esteja construindo uma narrativa sobre aquilo que acontece.
Ele não pensa:
“Minha mãe está assustada.”
“Existe perigo.”
“Eu preciso me proteger.”
Mas seu organismo está em relação com um ambiente.
E essa diferença é fundamental.
Se não existe lembrança, pode existir experiência?
Sim.
Nem toda aprendizagem depende de uma lembrança consciente.
Sabemos, por exemplo, que existe aprendizagem pré-natal relacionada a determinados estímulos sensoriais, especialmente em fases mais avançadas da gestação.
Também sabemos que o desenvolvimento do sistema nervoso acontece em interação com fatores genéticos, biológicos e ambientais.
Por isso, dizer que não possuímos uma lembrança consciente da vida intrauterina não significa dizer que aquele período seja irrelevante para o desenvolvimento.
Mas também não significa que exista dentro dos músculos ou dos tecidos uma espécie de filme intacto daquilo que aconteceu.
Quando usamos expressões como “o corpo registra”, precisamos compreender o que estamos querendo dizer.
Então o que significa dizer que “o corpo lembra”?
Na linguagem clínica, às vezes dizemos:
“Meu corpo reagiu antes que eu entendesse.”
Uma pessoa entra em determinado ambiente e sente tensão.
Recebe um toque e se contrai.
Escuta um som e percebe o coração acelerar.
Encontra uma situação aparentemente comum e sente uma reação muito maior do que esperava.
Isso não significa necessariamente que exista uma lembrança escondida esperando para ser recuperada.
Pode significar que nosso organismo aprendeu maneiras de responder.
Ao longo da vida, experiências repetidas podem participar da organização de respostas fisiológicas, emocionais e comportamentais que acontecem sem que precisemos pensar conscientemente nelas.
O corpo não precisa contar uma história para participar dela.
E podemos levar essa ideia até a gestação?
Aqui precisamos diferenciar aquilo que a ciência consegue demonstrar daquilo que investigamos dentro da Psicologia Pré e Perinatal e da Psicoembriologia.
A ciência permite falar sobre desenvolvimento fetal, aprendizagem sensorial pré-natal, influência do ambiente gestacional e possíveis associações entre determinadas exposições durante a gestação e aspectos posteriores do desenvolvimento.
A Psicologia Pré e Perinatal amplia a pergunta:
será que experiências ocorridas muito antes da memória autobiográfica também podem participar da maneira como uma pessoa se organiza posteriormente?
Na Psicoembriologia, essa investigação pode chegar ainda mais cedo, considerando experiências relacionadas à concepção, ao desenvolvimento embrionário e à vida intrauterina.
Eu trabalho com essa possibilidade como uma lente de investigação, não como uma conclusão pronta.
O corpo pode abrir perguntas
Imagine uma pessoa que apresenta uma reação corporal muito intensa diante de determinada situação.
Podemos perguntar:
Quando você percebeu isso pela primeira vez?
O que estava acontecendo naquele momento?
Existem outras situações em que seu corpo responde da mesma maneira?
Que experiências da infância podem estar relacionadas?
Como eram seus primeiros vínculos?
O que sabemos sobre seu nascimento?
E, quando fizer sentido dentro daquela história:
O que sabemos sobre sua gestação?
Não começamos pela resposta.
Começamos pela curiosidade.
Porque uma reação presente pode ter muitas origens e ter sido reforçada por muitas experiências diferentes ao longo da vida.
O perigo de transformar sensação em lembrança
Existe aqui um cuidado especialmente importante.
Uma sensação corporal que aparece durante um processo terapêutico não comprova que determinado acontecimento ocorreu.
Da mesma maneira, uma imagem, emoção ou experiência que emerge durante uma visualização, regressão ou trabalho corporal não deve automaticamente ser tratada como uma memória histórica precisa.
Ela pode ser significativa.
Pode produzir associações.
Pode ajudar uma pessoa a compreender sua experiência.
Pode ter enorme valor terapêutico.
Mas significado subjetivo e comprovação histórica não são a mesma coisa.
Para mim, preservar essa diferença não diminui a profundidade do trabalho.
Ao contrário.
Permite investigar sem precisar fabricar certezas.
Escutar o corpo sem obrigá-lo a provar nada
Talvez seja essa a parte que mais me interessa.
Quando uma pessoa sente algo que não consegue explicar, não precisamos escolher imediatamente entre:
“isso não significa nada”
e
“isso certamente aconteceu no seu período intrauterino”.
Existe um espaço muito maior entre essas duas afirmações.
Podemos observar.
Sentir.
Investigar.
Relacionar aquela experiência a outros momentos da história.
Construir recursos.
Experimentar novas respostas.
E perceber o que acontece quando aquele organismo descobre que hoje existem possibilidades que talvez não existissem antes.
Porque compreender nossa história não significa encontrar uma única causa para aquilo que somos.
Significa ampliar a quantidade de informações que temos sobre nós mesmos.
O corpo pode não contar a história com palavras.
Mas, às vezes, ele nos mostra onde vale a pena começar a escutar.
Referências
- Mandl S, et al. Early Human Development. 2024;192:106009. doi:10.1016/j.earlhumdev.2024.106009.
Referências selecionadas pela própria Patrícia.