Quando falamos sobre a vida intrauterina, existe um cuidado importante: reconhecer a influência do ambiente gestacional sem transformar a gestação em uma espécie de sentença sobre o futuro da criança — e, principalmente, sem colocar sobre a mãe a responsabilidade por tudo aquilo que o filho poderá sentir ou viver.
A gestação não acontece fora da vida.
Existem mulheres que atravessam esse período tranquilas e amparadas. Outras enfrentam medo, luto, conflitos familiares, dificuldades financeiras, problemas de saúde, ansiedade, mudanças inesperadas ou uma gestação que chegou em um momento muito diferente daquele que haviam imaginado.
E nada disso, isoladamente, determina quem aquela criança será.
Ao mesmo tempo, também não precisamos imaginar o útero como um ambiente completamente separado daquilo que acontece fora dele.
Um bebê em desenvolvimento está em relação com um ambiente
Durante a gestação, mãe e bebê estão ligados por uma relação biológica extremamente complexa, mediada, entre outras estruturas, pela placenta.
Alterações fisiológicas relacionadas ao estresse materno podem participar desse ambiente gestacional por diferentes vias hormonais, metabólicas, imunológicas e placentárias. Isso não significa que cada emoção da mãe seja simplesmente “transmitida” ao bebê.
Uma mãe pode sentir medo. Pode ficar triste. Pode se irritar. Pode ter um dia péssimo.
O organismo humano possui recursos de adaptação, e a placenta também exerce funções importantes de proteção e regulação.
O que as pesquisas vêm investigando com maior atenção são principalmente situações de sofrimento psicológico significativo ou estresse persistente e suas possíveis associações com aspectos da gestação e do desenvolvimento da criança.
Estamos falando, portanto, de influências e probabilidades — não de destinos.
O bebê percebe o mundo antes de nascer?
Em alguma medida, sim.
À medida que seu sistema sensorial e nervoso se desenvolve, o bebê passa a responder a diferentes estímulos do ambiente intrauterino.
Sons, movimentos, ritmos corporais e, mais adiante na gestação, características da voz fazem parte dessa experiência. Estudos sobre aprendizagem fetal sugerem inclusive que determinados estímulos sonoros apresentados durante a gestação podem ser reconhecidos após o nascimento.
Isso é fascinante.
Mas precisamos tomar cuidado para não transformar capacidade sensorial e aprendizagem fetal em capacidades psicológicas que ainda não podemos afirmar.
Reconhecer uma voz não é o mesmo que compreender o significado de uma conversa.
Responder fisiologicamente a mudanças do ambiente não significa interpretar essas mudanças como um adulto interpretaria.
Existe uma história sendo vivida ali, mas ela acontece de acordo com as possibilidades daquele organismo em desenvolvimento.
E onde entram os chamados “registros intrauterinos”?
Aqui encontramos uma fronteira importante entre diferentes formas de compreender o desenvolvimento humano.
Do ponto de vista científico, podemos falar em desenvolvimento do sistema nervoso, aprendizagem fetal, respostas fisiológicas, influência do ambiente gestacional, mecanismos epigenéticos e processos de adaptação.
Na Psicologia Pré e Perinatal e, especialmente, na Psicoembriologia, ampliamos esse olhar e consideramos também a possibilidade de que experiências muito precoces participem da organização de padrões corporais, emocionais e relacionais posteriores.
Na minha prática, essa é uma hipótese de compreensão — não uma sentença sobre a origem de um comportamento.
Se uma pessoa apresenta, por exemplo, medo intenso de abandono, eu não parto da ideia de que “isso aconteceu porque sua mãe viveu determinada situação durante a gravidez”.
Eu investigo.
Porque entre uma experiência e um padrão adulto existe uma vida inteira.
Existem temperamento, genética, relações familiares, experiências posteriores, cultura, perdas, vínculos, recursos internos, possibilidades de reparação e inúmeras outras experiências capazes de reorganizar aquilo que foi vivido.
O período pré-natal pode ser uma parte dessa história.
Não precisa ser a explicação para tudo.
Talvez a pergunta mais interessante seja outra
Em vez de perguntar: “O que minha mãe fez ou sentiu para que eu me tornasse assim?”, prefiro perguntar: “O que meu organismo pode ter aprendido ao longo da minha história — e o que ele ainda acredita que precisa fazer para me proteger?”
Essa mudança parece pequena, mas muda tudo.
Ela tira a mãe do banco dos réus. Tira a pessoa do lugar de vítima de uma história que não pode modificar. E nos permite olhar para o início da vida como uma possibilidade de compreensão, não como condenação.
Nossa história pode começar muito antes daquilo que conseguimos lembrar. Mas ela continua sendo escrita depois que nascemos.
Referências
- Mandl S, et al. Early Human Development. 2024;192:106009. doi:10.1016/j.earlhumdev.2024.106009.
- Movalled K, et al. Fetal learning from sound stimulation: a systematic review. BMC Pediatrics. 2023.
Referências selecionadas pela própria Patrícia.