Mary Ainsworth e a observação do apego
Mary Ainsworth e colaboradores desenvolveram a Situação Estranha, procedimento observacional que permitiu estudar como crianças pequenas utilizavam a figura cuidadora diante de separação, reencontro e exploração.
A partir dessas observações foram descritos padrões seguro, inseguro-evitativo e inseguro-resistente ou ambivalente. A classificação desorganizada foi desenvolvida posteriormente por Mary Main e Judith Solomon.
Apego seguro
Na classificação segura, a criança tende a utilizar o cuidador como base para explorar e como fonte de conforto quando está angustiada.
Isso não significa ausência de choro, medo ou protesto. Segurança não é ausência de necessidade; é poder recorrer ao vínculo quando a necessidade aparece.
Apego inseguro-evitativo
Na classificação evitativa, a criança pode demonstrar menos busca manifesta por proximidade e conforto no reencontro.
Isso não significa necessariamente que não exista ativação emocional. A estratégia observada é reduzir ou desativar a expressão de necessidade em determinadas condições relacionais.
Apego inseguro-resistente ou ambivalente
Na classificação resistente ou ambivalente, a criança pode intensificar a busca de proximidade e, ao mesmo tempo, apresentar dificuldade para se acalmar no reencontro.
A proximidade é buscada, mas nem sempre consegue produzir rapidamente a sensação de segurança.
E o apego desorganizado?
A classificação desorganizada descreve situações em que, diante do estresse, aparecem comportamentos contraditórios, interrompidos ou sem uma estratégia coerente e estável de aproximação.
Ela não é sinônimo de uma personalidade futura nem deve ser usada como rótulo.
Nenhuma dessas classificações descreve uma pessoa inteira
Esses padrões foram desenvolvidos para observações específicas da relação criança-cuidador.
Por isso, não podemos olhar para um comportamento adulto e reconstruir automaticamente o padrão de apego daquela pessoa na infância.
Na vida adulta existem outros métodos e construtos para estudar apego, e eles não devem ser confundidos diretamente com as classificações infantis.
Estratégias fazem sentido dentro de contextos
Quando uma estratégia se organiza, vale perguntar o que ela permitia àquela criança fazer diante da necessidade de proteção e proximidade.
Em vez de julgar a resposta, podemos investigar sua função.
E uma vida inteira também pode produzir mudança
As experiências iniciais importam, mas não são destino.
Relações posteriores, psicoterapia, experiências de segurança e novos recursos podem participar de mudanças nas expectativas e estratégias relacionais.
O que eu aprendi que precisava fazer quando necessitava de alguém?
Porque, muitas vezes, antes de existir um padrão que hoje nos incomoda, existiu uma necessidade.
E antes de julgarmos a estratégia que encontramos para sobreviver a ela, talvez valha a pena compreender o que ela estava tentando proteger.
Referências
- AINSWORTH, M. D. S.; BLEHAR, M. C.; WATERS, E.; WALL, S. Patterns of Attachment: A Psychological Study of the Strange Situation. Hillsdale, NJ: Lawrence Erlbaum Associates, 1978.
- MAIN, M.; SOLOMON, J. Procedures for identifying infants as disorganized/disoriented during the Ainsworth Strange Situation. In: GREENBERG, M. T.; CICCHETTI, D.; CUMMINGS, E. M. (eds.). Attachment in the Preschool Years. Chicago: University of Chicago Press, 1990.
- MIKULINCER, M.; SHAVER, P. R. Attachment in Adulthood: Structure, Dynamics, and Change. 2. ed. New York: Guilford Press, 2016.
Referências selecionadas pela própria Patrícia.